quarta-feira, 5 de agosto de 2015

EM CARTA, VIÚVA DE PILOTO DE EDUARDO CAMPOS DIZ QUE HOUVE FALHA EM AVIÃO

 A esposa de Marcos Martins, piloto morto em acidente que também vitimou o candidato à presidência Eduardo Campos há quase um ano, elaborou e enviou uma carta para o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e para a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Com a ajuda de consultores, Flávia Martins alega que as aeronaves da família Cessna 560 Citation EXCEL (XL, XLS, XLS +) apresentam uma falha de previsão no projeto - mais precisamente nos estabilizadores horizontais.

G1 teve acesso à carta enviada por Flávia. O documento de 16 páginas, datado no dia 6 de julho deste ano, foi remetido ao Brigadeiro Dilton José Schuck, chefe do Cenipa. Por telefone, a assessoria de Schuck disse que os apontamentos das famílias dos pilotos serão levados em consideração, mas que uma nota oficial sobre a atual situação da investigação deverá ser divulgada nesta semana.O estabilizador horizontal é responsável por apontar o sentido que o nariz da aeronave deve estar durante o vôo. Neste modelo, se a velocidade está acima de 200 nós (cerca de 400 km/h) e os flaps são recolhidos  — superfícies de sustentação nas asas — o estabilizador horizontal provoca uma tendência do nariz para baixo. No momento do acidente, o avião estava em aceleração e com um ângulo de 38º em relação ao solo, segundo o Cenipa.
A queda da aeronave prefixo PR-AFA em Santos, São Paulo, matou sete pessoas há quase um ano: foi na manhã do dia 13 de agosto de 2014. Além do candidato à presidência Eduardo Campos, os pilotos Marcos Martins e o copiloto Geraldo Magela, os fotógrafos Alexandre Severo e Macelo Lyra, jornalista Carlos Percol e o assessor Pedro Valadares também morreram.
Na última coletiva de imprensa concedida pelo Cenipa, em 26 de janeiro deste ano, o órgão sinalizou que os pilotos estariam acelerando o avião e indo em direção ao solo. Segundo o tenente-coronel Raul de Souza, o piloto fez trajeto "diferente" do previsto na carta. "A gente não pode concluir que ele tenha feito um atalho. Ele fez um procedimento diferente do que estava previsto", afirmou, na época. Os responsáveis pela análise, porém, disseram que ainda não era possível concluir se esse fator contribuiu para o acidente nem se houve erro dos pilotos. Também disseram que não foi identificada falha técnica da aeronave.
Carlos Camacho, especialista em acidentes aéreos e piloto por 38 anos, foi quem levantou para as famílias dos pilotos a tese de uma falha de previsão no projeto do avião. Dois outros casos foram detalhados no documento encaminhado por Flávia: um incidente aéreo que ocorreu em 2 de dezembro de 2002, na Suíça (prefixo HB-VAA); e outro mais recente, em aeronave que voava de Manaus para Orlando (prefixo PP-MDB). (Leia detalhes dos dois casos abaixo)
De acordo com a tese das famílias, esses dois incidentes e o acidente de Eduardo Campos têm a mesma causa. “Eventos que, de uma ou doutra forma, se correlacionam e apontam o estabilizador horizontal como o verdadeiro ‘vilão’”, como está escrito na carta encaminhada às autoridades investigadoras.
Sem qualquer relação com a família dos pilotos, o professor de Aerodinâmica da Escola Politécnica, Julio Romano Meneghini, foi um dos profissionais que analisaram os vídeos do acidente há um ano. Hoje, ele diz que “não descarta a hipótese recentemente apresentada” e confirma tal fenômeno apontado pelos parentes dos pilotos como característica dessa família da aeronave Cessna.
Em áudio divulgado pelo Jornal Nacional na época do acidente, os pilotos avisam de forma tranquila ao controlador que iriam arremeter - subir para depois fazer uma segunda tentativa de pouso. É comum que os pilotos mexam na alavanca de flaps para a realização do procedimento, também explica Meneghini.
“Não sei te dizer se há um aviso sonoro que mostre o problema do estabilizador aos pilotos dentro da aeronave. Provavelmente tem apenas o aviso de baixa altitude, claro. Mas é impossível uma pessoa responder. É uma situação que não existe ser humano que consegue reagir tão rápido. É questão de segundos”, disse Meneghini.
Camacho, consultor da família dos pilotos, argumenta que essa falha de previsão dos modelos seria recorrente, utilizando os dois casos anteriores. Essa é, portanto, a principal tese que deverá ser apresentada pelos advogados das famílias dos pilotos Marcos Martins e Geraldo Magela, segundo o advogado que as representa, Josmeyr Oliveira.
De fato, há um alerta sobre a combinação velocidade/flaps/estabilizador horizontal no manual dos aviões dessa família. O aviso diz, em livre tradução: "Caso ocorra uma falha do sensor de velocidade, ao se comandar o recolhimento dos flaps e estando a velocidade acima de 200 KIAS (200 nós ou cerca de 400 km/h), poderá ocorrer a movimentação do nariz para baixo de forma intensa. A tripulação não terá qualquer forma de controle no posicionamento do estabilizador horizontal. O movimento do estabilizador só é controlado pela posição da alavanca de acionamento dos flaps do avião, quando a mesma é levada para a posição zero grau (up) aba".
Flávia argumenta em sua carta que, caso houvesse um aviso sonoro, os pilotos poderiam perceber com mais facilidade o que estaria ocorrendo com o avião. Para Meneghini, o mecanismo está descrito em “uma nota muito discreta [no manual]”.
O advogado da família Campos, José Henrique Wanderley Filho, informou que o posicionamento será de aguardar o relatório final dos órgãos investigadores e que há muito para se descobrir sobre o caso. Já o irmão do candidato Eduardo Campos, Antônio Campos, publicou em seu blog uma entrevista sobre o caso (leia na íntegra)
  1. Um ano após acidente que vitimou Eduardo Campos quais as causas da queda do avião?
Como irmão de Eduardo, minha posição é a de esperar um pouco mais pelas conclusões dos inquéritos civil, comandado pelo Procurador da República em Santos, Thiago Nobre, e do policial, comandando pelo Delegado Federal Rubens, que se encontra na 5ª Vara Federal de Santos. A de Renata e dos filhos de Eduardo, que estão sendo representados pelo advogado José Henrique Wanderley, é a mesma. Contudo, ao chegar a um ano de investigações, pelo que acompanhei, li e segundo abalizadas opiniões técnicas, eu estou convencido que a causa determinante do acidente de Eduardo foi um erro de projeto do avião Cessna. As famílias do piloto e do co-piloto já começaram o primeiro procedimento contra a Cessna nos EUA, através do escritório americano PodHurst, especialista em acidentes aéreos. O parecer do ex-comandante e perito Carlos Camacho é muito claro e inteligível, que subsidiará a ação. Se o juiz americano julgar a ação conveniente, dando início ao processo, a Cessna virá propor um acordo, o que será um reconhecimento de culpa, devendo mudar o projeto do avião em alguns itens.
  1. Existe algum parecer técnico?
Os inquéritos não foram, ainda, concluídos. Contudo, o parecer técnico, mais plausível, é no sentido de explicitar erro de projeto do estabilizador horizontal do avião sinistrado e de precedentes de problemas idênticos com outras aeronaves semelhantes. O automatismo projetado para o estabilizador horizontal falhou, colocando o avião para a posição de Nose Down (nariz para baixo), passando o avião a se comandar e levando-o a um mergulho fatal e incontrolável. Houve um incidente grave no dia 2 de dezembro de 2012, na Suíça, com o avião HB-VAA, e com o avião PP – MDP, em um voo cruzeiro de Manaus com destino a Orlando, no dia 2 de junho de 2015, portanto, recentemente. A Cessna terá que, certamente, mudar o projeto do Cessna CE560 nos modelos XL, XLS e XLS+, para corrigir tal falha, que já foi comunicada ao Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) e a outras autoridades no Brasil e nos EUA. Os outros dois aviões que tiveram problemas estavam em altitude elevada, o que fez a diferença entre viver e morrer.

  1. A família aceita essa versão? Está tomando providências em relação a algum órgão? 
Estamos aguardando as conclusões dos inquéritos civil e penal, mas, por enquanto, é nessa hipótese que eu acredito e vamos aguardar a admissibilidade da ação nos EUA.
  1. O senhor se encontrou com as famílias em Santos? Tem acompanhado esse processo? 
Sim, fiz uma visita às famílias de Santos que foram prejudicadas com a queda do avião pouco tempo após a tragédia. Ofereci orientação jurídica e estou acompanhando os procedimentos, cujas famílias também poderão ser acolhidas na ação movida nos EUA.
  1. Como o senhor soube da notícia da tragédia? Onde o senhor estava? Qual foi sua reação?
No momento da tragédia eu estava no meu escritório de advocacia, trabalhando. Soube através de um assessor que entrou na minha sala, atordoado, e me deu uma notícia inconclusa. Demorei alguns minutos para acreditar, e tive esperança que aquela informação fosse brevemente desmentida. Mas, infelizmente, não foi o que aconteceu, e pouco tempo depois todos os jornais já noticiavam a tragédia.
  1. Nesses doze meses, o que mudou na sua rotina, e na da sua família, devido a uma tragédia desse porte?
Desde aquele fatídico dia 13 de agosto, passamos a conviver com a dor da saudade. Eduardo nos faz falta todos os dias. Relembrar os bons momentos que tivemos juntos e as boas ações que ele fez para mudar o nosso Estado e a tentativa de mudar o país, é o que tem me conformado.

  1. Qual foi a última vez que o senhor o viu? E o que foi que ele disse, de marcante, pela última vez?
Encontrei com ele no seu aniversário, dia 10 de agosto, quando conversamos. Nos falamos logo após a sua entrevista no Jornal Nacional. Ele estava feliz e esperançoso com a sua campanha e me disse “Fizemos um gol de placa”, sobre a exitosa entrevista no Jornal Nacional. Meu último contato com ele foi cedo, na manhã do acidente, por whatsapp, ainda repercutindo a entrevista e sobre um assunto específico de campanha. E a última palavra dele para mim foi “Obrigado”.
  1. Como era Eduardo Campos na intimidade?  E do que o senhor mais sente falta no dia a dia?
Eduardo era um ser humano excepcional. Sempre muito solidário e amigo. Sinto falta do seu companheirismo e da sua grande solidariedade humana.
  1. Na infância, como se relacionavam? E na fase adulta?
Nossa relação sempre foi muito próxima e companheira durante todas as fases das nossas vidas. Um vídeo, publicado no Youtube recentemente, por um amigo, traz um belo depoimento de Eduardo sobre o nosso relacionamento.
  1. O que significou a perda de Eduardo para a política brasileira?
A morte prematura de Eduardo frustrou no Brasil a possibilidade de ver a terceira via chegar ao poder nessa década. Ele tinha um pensamento estratégico para o Brasil e uma visão ampla da política mundial. Sua morte teve repercussão mundial. Ele anteviu a crise que enfrentamos no momento e queria ser a alternativa que unisse o Brasil para um novo projeto, para vencer essa crise anunciada.

  1. Dez anos depois de sua morte e há um ano do seu centenário de nascimento, qual a atualidade do pensamento de Miguel Arraes?
Arraes tinha um projeto para o Brasil centrado na força do povo brasileiro. Era um homem que criou programas sociais e educacionais que inspiraram o Brasil e alguns lugares do mundo. Era um homem apaixonado por inovação e tecnologia. Em 2016, no ano do seu centenário, o Instituto Miguel Arraes e a Fundação João Mangabeira do PSB farão um seminário internacional sobre a atualidade do seu pensamento com convidados brasileiros e estrangeiros. Arraes foi um político ímpar, pela sua história em Pernambuco e no Brasil, e sua vida no exterior.
  1. Após a perda de Eduardo e o resultado das eleições para presidente, o Brasil mergulhou em uma crise ética, econômica e política. Como o senhor analisa a situação do país?
O Brasil precisa se unir numa agenda mínima para vencermos a grave crise que enfrentamos. Precisamos que a sociedade participe desse debate que os políticos não conseguem, sozinhos, liderar.
  1. O que lhe motivou a dar continuidade a trajetória política de sua família ao admitir postular a Prefeitura de Olinda?
Sou um Campos Arraes na política. Não me considero o sucessor de Arraes ou Eduardo, cujo legado é do povo. Venho de uma família que há mais seis décadas vem participando da política de Pernambuco e do Brasil sempre defendendo os interesses do povo brasileiro. Meu avô, Miguel Arraes, participou ativamente da campanha “O petróleo é nosso” que motivou a criação da Petrobras, foi prefeito do Recife, governou Pernambuco por três vezes e foi deputado constituinte. Minha mãe, Ana Arraes, foi deputada federal. Meu irmão, Eduardo, foi parlamentar, Ministro de Estado, governador de Pernambuco por duas vezes e candidato a Presidente da República. Minha formação política se deu vivenciando e participando deste ambiente de luta política. A disputa eleitoral faz parte da minha história de vida.
  1. Como o senhor descreveria a trajetória de Eduardo? Em qual momento o senhor acredita que ele deixou de ser um militante, uma espécie de braço direito do avô, o governador Arraes, e passou a ser um líder?
O nosso avô Arraes nos ensinou a conquistar os espaços políticos, que não devem ser dados. Eduardo construiu seu espaço e se afirmou como liderança através do seu trabalho, o que veio a ser reconhecido por Arraes. Eduardo foi um Arraes novo e, não, um novo Arraes, como disse Ariano Suassuna. Eduardo foi um dos políticos mais brilhantes da história política brasileira.
  1. Fala-se muito no potencial de João. O senhor acha que ele tem esse perfil, esse carisma e a vocação que o pai tinha?
João Campos é um jovem brilhante, com um futuro promissor e, tenho convicção, que Eduardo ficaria feliz com ele tendo destaque na sua vida profissional e política.
  1. Um ano depois, como o senhor avalia o PSB? Quem seriam os representantes legítimos de Eduardo?
Trabalho e entendo que devemos fortalecer a liderança do governador Paulo Câmara para liderar Pernambuco nesse momento grave de crise que o Brasil atravessa. O prefeito Geraldo Júlio desempenha também papel importante no sentido de ajudá-lo nessa tarefa.
  1. Eduardo faz falta nesse momento de crise política e econômica que abrange não só Pernambuco. Ele, inclusive, alertou sobre o que aconteceria. O que mais lhe vem à mente quando vê a crise, e lembra do que Eduardo previu?
Eduardo tinha uma grande fé no povo brasileiro e na sua capacidade de vencer adversidades. Ele queria liderar a mudança que o Brasil precisa para criar uma nova página na sua história. Eduardo nos deixou a lição de que não devemos, nunca, desistir do Brasil.
  1. Qual vai ser a agenda para marcar os 50 anos de Eduardo?
Haverá uma extensa agenda de homenagens ao primeiro ano da morte de Eduardo e também à data do seu aniversário. Lembro, também, que no dia 13 de agosto completa-se 10 anos da morte de Arraes. Haverá um evento do PSB nacional, em Pernambuco, uma homenagem da Assembleia Legislativa, da Câmara dos Deputados do Senado Federal e, no dia 13, acontecerão missas em diversas cidades de Pernambuco.
 “Os inquéritos não foram, ainda, concluídos. Contudo, o parecer técnico, mais plausível, é no sentido de explicitar erro de projeto do estabilizador horizontal do avião sinistrado e de precedentes de problemas idênticos com outras aeronaves semelhantes.”
Casos usados pela defesa
No caso de 2002, na Suíça, quando a aeronave estava em 10 mil pés de altura, os pilotos descobriram que não haviam recolhido os Flaps. A velocidade estava em 254 nós. O comandante viu o avião ir em direção ao chão, mas como estava em uma boa altura em relação ao solo teria conseguido soltar a alavanca e voltar à posição inicial. As informações estão presentes no relatório do órgão investigador do país.
Já o caso recente, entre Manaus e os Orlando, nos Estados Unidos, no início de junho, foi surpreendido repentinamente com o posicionamento do avião com o nariz para cima, de forma incontrolável. Um mecânico estava presente e contribuiu na operação para que os pilotos pudessem recuperar parte do controle do avião. A tendência da aeronave era, diferente do caso anterior, de subir. Sem nenhuma intervenção da tripulação, a aeronave começou a subir por conta de uma folga na alavanca de comando dos flaps, posteriormente verificada pelo fabricante quando a aeronave aterrissou em Orlando.

fonte/foto/G1 e blog de Antônio Campos

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